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Iniciativa do Programa Celso Furtado transforma descarte de óleo em ação sustentável e aprendizado coletivo
Transformar o óleo de cozinha em sabão, velas, tintas e até biodiesel é o ponto de partida do Cicla-Óleo, projeto do Programa Celso Furtado, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties). A iniciativa une estudantes, professores e comunidades em torno de práticas sustentáveis que mostram, na prática, como o conhecimento científico pode gerar impacto social e ambiental. Nesta semana, em que se relembra o aniversário de morte de Celso Furtado, no próximo dia 20 de novembro, o projeto será tema da segunda reportagem na série especial sobre sustentabilidade e a COP 30, produzida para o Jornal A União, que apresenta ações da Paraíba conectadas à agenda global do clima.
Com atividades realizadas em escolas, universidades, associações de moradores, ONGs e programas de educação de jovens e adultos, o projeto aposta em uma combinação simples e eficaz: levar informação e experimentação prática sobre o impacto ambiental do óleo residual de fritura e as possibilidades de reaproveitamento desse material.
O projeto começa com atividades onde estudantes e professores explicam os impactos do descarte incorreto do óleo de cozinha. A partir daí, são promovidas oficinas em que os participantes aprendem, na prática, a transformar o óleo usado em novos produtos. Essas oficinas são conduzidas por estudantes universitários e técnicos parceiros, criando um espaço de aprendizado coletivo.
“Pode parecer invisível, mas o óleo residual de fritura é um grande problema ambiental. O Brasil produz mais de nove bilhões de litros de óleo vegetal por ano, mas menos de 10% desse volume retorna à indústria para ser reutilizado. E um único litro de óleo é capaz de contaminar 25 mil litros de água”, explicou o professor Jailton Ferrari, do departamento de química da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordenador do projeto.
O dado impressiona pelo impacto silencioso. Segundo Jailton, esse é o ponto de partida do projeto, dar visibilidade a um problema pouco discutido e mostrar que o óleo, antes de ser um resíduo, é também uma matéria-prima importante. “A maior parte desse óleo é simplesmente descartada na natureza, o que causa danos sérios ao meio ambiente. Queremos mostrar que ele pode ser reaproveitado para produzir sabão ecológico, velas, tintas recreativas, rações e até biocombustíveis”, completa.
Cada oficina realizada funciona como um espaço de diálogo entre universidade e comunidade, onde estudantes compartilham o que aprendem em sala de aula. “Os estudantes são o coração do Cicla-Óleo. São eles que dialogam, capacitam e aprendem com as pessoas. Essa troca fortalece a formação cidadã e humanitária deles, porque viver fora dos muros da universidade é uma das formas mais transformadoras de aprendizado.”
Em muitos casos, o projeto ultrapassa o caráter educativo e alcança o campo econômico. As oficinas de velas artesanais, por exemplo, têm despertado o interesse de grupos de mulheres em comunidades e associações locais. “As velas chamam atenção porque são bonitas, sustentáveis e podem gerar renda. Às vezes, viram presentes; outras vezes, uma nova fonte de trabalho”, conta o professor.
Além das oficinas voltadas ao público adulto, o Cicla-Óleo também criou atividades específicas para crianças e adolescentes. Em ações realizadas com grupos de escoteiros e escolas públicas, o projeto ensina de forma lúdica o que acontece quando o óleo é descartado incorretamente e como ele pode ser reaproveitado.
“O Cicla-Óleo é uma forma de mostrar que o desenvolvimento sustentável não é apenas um conceito distante. Ele pode nascer dentro das comunidades, com base na educação, no engajamento e na ciência”, reforça Jailton. Segundo ele, o apoio do Programa Celso Furtado foi essencial para dar fôlego às ações e garantir o envolvimento estudantil. “O programa nos encontrou e nos alavancou. Sem ele, seria difícil manter a continuidade e o alcance que temos hoje.”
Impacto do pensamento de Celso Furtado na crise climática
Criado pela Lei Estadual nº 12.056/2021, o programa tem fortalecido a pesquisa científica e a educação pública em todas as regiões do estado, estimulando soluções que nascem dentro das universidades, mas se expandem para a sociedade.
Para o professor e pesquisador Cidoval Morais de Sousa, consultor do Programa Celso Furtado e estudioso da área de Desenvolvimento Regional na UEPB, a importância do programa está em promover uma nova forma de pensar o desenvolvimento com base em ciência, criatividade e inclusão. “O Programa Celso Furtado contribui para o desenvolvimento da Paraíba ao fortalecer a educação e a pesquisa, estimular a inovação, interiorizar o conhecimento, gerar impacto social sustentável e formar novas gerações de pesquisadores. Ele traduz a visão de Celso Furtado de que desenvolvimento regional exige ciência, criatividade e inclusão.”
Essa perspectiva se reflete nos projetos apoiados, especialmente nos que tratam de temas ambientais. Cidoval explicou que o programa estimula pesquisas voltadas à sustentabilidade e à adaptação climática, conectando-se diretamente aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente os que tratam de energia limpa, uso sustentável da biodiversidade e redução das desigualdades regionais.
O professor enfatizou que o pensamento de Celso Furtado é muito atual diante da crise climática. Ele destacou que o economista paraibano foi um dos primeiros a alertar sobre os limites ecológicos do modelo de desenvolvimento tradicional. “Celso Furtado antecipou o debate sobre justiça ambiental e sustentabilidade ao defender que não há desenvolvimento verdadeiro sem equilíbrio entre as dimensões econômica, social, ambiental e cultural”, afirma. “Sua valorização da Caatinga, da bioeconomia e da ciência como instrumentos de soberania nacional mostra como o Semiárido pode ser reinterpretado como território de inovação e futuro”, completou.
Sobre o programa Celso Furtado
Criado pela Lei nº 12.056, de 15 de setembro de 2021, o Programa Celso Furtado é uma iniciativa da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties) que incentiva estudantes e professores a desenvolverem pesquisas e projetos voltados à realidade paraibana. Inspirado no pensamento do economista Celso Furtado, o programa busca integrar educação, território e sustentabilidade, aproximando ciência e desenvolvimento regional de forma prática e transformadora.
O programa tem como objetivo fortalecer o estudo da obra e das ideias de Celso Furtado, estimulando soluções criativas que contribuam para o desenvolvimento humano, social e econômico da Paraíba. Alinhado aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, o programa está aberto à participação de alunos e professores da educação básica, do ensino superior público e do sistema prisional, com foco em cinco eixos temáticos: mudanças climáticas, educação e cultura, combate à fome e às desigualdades, diversidade e inclusão, e valorização da Caatinga e das energias renováveis.